Longevidade Saudável

CONSENSOS DO COLÉGIO BRASILEIRO DE MEDICINA ANTI-ENVELHECIMENTO E LONGEVIDADE

Consenso #2 Reposição Hormonal na Andropausa

Após criteriosa revisão da literatura científica, discussões com médicos representantes de todos os continentes e discussões entre médicos brasileiros, todos profissionais versados e adequadamente qualificados em utilizar e prescrever hormônios em seres humanos com a finalidade primária de promoção da saúde e, ainda, em total consonância com os preceitos e guidelines da International Hormone Society, da World Society of Anti-Aging Medicine, da American Academy of Anti-Aging Medicine, do American Board of Anti-Aging e da European Society of Anti-Aging Medicine nós, médicos membros do grupo de consenso do Colégio Brasileiro de Medicina Antienvelhecimento e Longevidade e do Grupo Longevidade Saudável, concluímos haver chegado o momento de considerar a deficiência hormonal masculina, e o conseqüente tratamento de reposição hormonal da andropausa.

Desde que a estrutura química da testosterona e a técnica de obtê-la de forma sintética foram descobertos na década de 30, um grande número de estudos têm demonstrado, de forma indubitável, ser a testosterona um hormônio indispensável para a manutenção de um estado ótimo de saúde na população masculina. Na medida em que os homens envelhecem, as frações biodisponíveis da testosterona e de outros androgênios declinam crônica e cumulativamente. O declínio gradual da testosterona biodisponível responde por uma vasta e multivariada gama de sinais e sintomas, tais como fadiga, depressão, mudanças do humor, labilidade emocional, irritabilidade, perda de massa muscular, aumento da gordura corporal total, aumento da gordura intra-abdominal, perda do desejo e da performance sexual, fragilidade imunológica, ginecomastia, perda de massa óssea e muitas outras manifestações que são, invariavelmente, atribuídas a achados normais da idade. A persistência da deficiência hormonal masculina pode aumentar os riscos das comorbidades associadas ao envelhecimento, tais como obesidade, depressão, diabetes, osteoporose e doenças cardiovasculares. Embora o declínio hormonal não afete de maneira tão aguda e incisiva os homens como a queda hormonal da menopausa, de todo modo, compromete, pela sua cronicidade e efeito cumulativo, a sua qualidade de vida, sua saúde e, muito provavelmente, a sua própria expectativa de vida. O declínio androgênico masculino recebe uma vasta sinonímia: distúrbio androgênico do envelhecimento masculino (DAEM), andropausa, climatério masculino, menopausa masculina, partial androgen deficiency in aging men (PADAM), hipogonadismo relacionado à idade, penopausa, dentre outros tantos.

A quantidade de homens que recebe atenção e tratamento no transcurso da deficiência hormonal é incomparavelmente menor do que a quantidade de mulheres que recebe reposição e tratamento na menopausa. Isto se deve, principalmente, ao fato de que, ao contrário do declínio feminino, o declínio hormonal masculino ainda não é um fato plenamente aceito por boa parte da medicina tradicional. Com base na fisiologia do envelhecimento hormonal, nós acreditamos não haver qualquer justificativa válida para tal discriminação.

Os oponentes da reposição hormonal da andropausa amparam-se em estudos conflitantes e com sérios erros de desenho existentes na literatura, que demonstram diferenças não significativas entre os níveis séricos hormonais de homens jovens e homens velhos, outros sugerem que a testosterona pode aumentar a incidência de câncer de próstata, enquanto outros sugerem que a reposição de testosterona não apresenta efeitos clínicos significativos. Estes estudos atípicos são fartamente contrapostos por um imenso número de estudos que são claros e unânimes em demonstrar exatamente o oposto, destacando-se, principalmente, um indubitável efeito protetor da testosterona contra o câncer de próstata.

Uma revisão global da literatura corrente não consegue fornecer qualquer evidência de que a reposição com testosterona ou seus derivados possa aumentar os riscos de câncer de próstata in vivo. Ao contrário, homens com baixos níveis de testosterona biodisponível são exatamente os que apresentam não só os maiores riscos de câncer de próstata, como a ocorrência de tumores de comportamento muito mais agressivo, aumento do processo de deposição aterosclerótica das artérias e piora gradual e cumulativa da qualidade de saúde. Além do mais, pacientes portadores de câncer de próstata que têm os seus níveis circulantes de testosterona drasticamente reduzidos por conta das terapias anti-androgênicas, não apresentam qualquer aumento ou melhora da sobrevivência.

Com a finalidade de detectar com o maior grau de precisão possível a deficiência hormonal masculina, nós recomendamos não somente uma detalhada avaliação clínica, levando-se em conta os sinais e sintomas físicos e mentais sugestivos do declínio masculino, como a realização de testes laboratoriais que auxiliem e quantifiquem o diagnóstico, dentre os quais: dosagem da testosterona total, testosterona livre, SHBG, proteinograma, DHT, testosterona biodisponível, FSH, LH, e o índice de androgênio livre. Igualmente importante é avaliar os níveis séricos de estradiol, uma vez que a elevação destes níveis pode provocar um bloqueio da ação da testosterona nos homens.

Levando-se em consideração o enorme impacto para a saúde masculina oriundo da queda de testosterona, nós recomendamos aos médicos que estimulem o tratamento desta deficiência para todos os casos, utilizando-se da testosterona bioidêntica ou de seus derivados quimicamente mais semelhantes possíveis, excetuando-se alguma contra-indicação absoluta. Todos os homens que avançam na idade devem expectar, cedo ou tarde, declínio dos seus níveis ótimos de testosterona, sendo, portanto, potenciais candidatos à terapia de reposição. A maioria dos homens irá experimentar declínio entre os 30 e 45 anos de idade. Vale, entretanto, salientar, que exceções a esta regra podem ocorrer, fazendo com que alguns homens venham a necessitar da reposição hormonal abaixo ou acima daquela faixa etária.

Somente doses fisiológicas de testosterona devem ser administradas, objetivando-se manter os níveis séricos comparáveis ao de adultos jovens e saudáveis, na faixa etária dos 25 a 30 anos.
As melhores vias de administração para este hormônio são a transdérmica e a intramuscular.

Níveis excessivos de estradiol devem ser evitados durante o tratamento de reposição com testosterona, por conta do efeito biológico neutralizador e além de responder pela ocorrência de ginecomastia, hipertrofia prostática benigna e, possivelmente infarto agudo do miocárdio. Ajustes no padrão alimentar, evitar álcool e cafeína, além da prática regular de atividade física são importantes medidas de suporte para redução dos níveis excessivos de estradiol. Evitar a obesidade é um ponto importantíssimo neste contexto, uma vez que o tecido adiposo é rico em aromatase, enzima que catalisa a transformação de testosterona em estradiol. Quando estas medidas não surtirem o efeito desejado, o uso de inibidores da aromatase ou de pequenas doses de progesterona pode estar indicado. A progesterona aumenta a transformação de estradiol em estrona, diminuindo, portanto, as suas concentrações séricas.

O câncer de próstata em atividade pode ser considerado como uma contra-indicação para o uso de testosterona. Contudo, ao se rever cuidadosamente a literatura atual, parece haver uma inconsistente base de evidências para dar suporte a esta afirmação. Muitos estudos, ao contrário, demonstram que portadores de câncer de próstata que também possuem deficiência hormonal masculina têm a sua qualidade de saúde severamente comprometida e podem ser beneficiados com a reposição de doses pequenas de testosterona, trazendo benefícios suplementares que em muito superam qualquer suposto risco de estimulo ao crescimento tumoral.

CONCLUSÃO DO CONSENSO:

Nós não conseguimos identificar na literatura atual qualquer evidência de que repor doses fisiológicas de testosterona deponha contra ou traga riscos à saúde de homens portadores de declínio nos níveis daquele hormônio. Ao contrário. Uma vez que são múltiplos e multivariados os benefícios advindos da reposição hormonal masculina, nós recomendamos o uso de doses fisiológicas de testosterona ou de seu derivado químico mais próximo possível, com o intuito de corrigir esta deficiência, submetendo este homem em reposição a um programa de acompanhamento clínico periódico e regular.

 

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